A barriga e nossa qualidade de vida

Sol, céu azul, pouco vento, mar azul esverdeado e ondas de espuma branca estimulam passar o dia na praia. As famílias se organizam debaixo de guarda-sóis ou gazebos, com alguns metros de distância entre os pequenos grupos para evitar contágio do famigerado SARS-CoV-2. A maioria traz seus próprios lanches e aperitivos para a praia, evitando assim, ao máximo, o contato com outras pessoas. Bem, mas alguma coisa temos que fazer para o tempo passar!  Minha principal atividade foi observar quem passa, os grupos vizinhos, o que conversam, o que bebem, o que comem, enfim o pequeno mundo à nossa volta. De repente minha prima levanta uma importante questão para o momento: a barriga é (ou pode ser considerada) um indicador de qualidade de vida? 

Dei início então a um experimento observacional, bastante questionável pela falta de um grupo controle e de uma metodologia pré-definida. Para uma re-análise futura e interpretação do ensaio os dados colhidos na amostra estão descritos a seguir.

A primeira barriga observada foi de uma linda menina de uns 20 anos, cabelos loiros compridos, caminhava só, como se estivesse em uma passarela, muito possivelmente ainda nem tivera um namorado “de compromisso”, constatamos de longe uma barriga lisinha de causar inveja a qualquer fisiculturista.

A segunda barriga feminina avaliada tinha sua contraparte masculina. Tratava-se de uma jovem de uns 30 anos, caminhando de mãos  dadas com um rapaz de óculos, barba e uma camiseta comprada em uma viagem à Bahia. Todo o indicativo era de que estávamos frente a um casal em fase inicial de compromisso, muito possivelmente já noivos com planos para um futuro juntos. Em ambos foi observado um leve início de proeminência abdominal, muito possivelmente flácido, pois não foi incluída nenhuma palpação na metodologia do estudo.

Quase que simultaneamente passa uma senhora com todos os indicativos de “mais de 50”, solteira ou viúva, caminhando também só, com passos firmes e determinados de quem vai a algum lugar, mas que não sabe qual é. A sua barriga era enorme, firme e bicuda, ocupando toda a região abdominal.

Depois de alguns goles de caipira na sombra, analiso o quarto conjunto de barrigas. Um casal aparentemente com mais de 60 anos. Ele com uma firme barriga intra-abdominal e canelas finas, ela de barriga chapada, mas vestindo um maiô. Todos os indicativos eram de que o casal tinha um boa situação financeira e ela teria feito uma abdominoplastia e lipoaspiração recente. O que gerou também uma outra questão. Porque o maiô, e, não os atuais biquinis de uso geral pelas mulheres de todas as idades? Teria o cirurgião esquecido de colocar o umbigo no lugar?

No calor da discussão sobre essa dúvida atroz, passa um casal entre 35-45 anos. Nessa faixa etária qualquer estimativa de idade é difícil. Entretanto, pela aparência das três crianças que os acompanhavam era possível inferir que se tratava de um casal já com uns 10 anos de casamento. O dramático seria pensar que essa união não deveria durar muito tempo. Isto, considerando a barriga enorme e flácida da “esposa”, que inclusive escondia parte da calcinha do biquini, contrastando com o visual descolado do “marido”, bronzeado, barriga sarada e com uma enorme tatuagem no ombro esquerdo.

O sexto conjunto de dados estava bem ao lado de nosso guarda-sol. Uma rápida análise nos fenótipos, já evidenciava a grande disparidade etária do casal. Ela entre 30-40 anos, sem demonstrar sinais de flacidez abdominal nem de barriga notável, provavelmente pelo fato de ainda não ter tido filhos. Já ele, com mais de 60 anos, com uma barriga bem pronunciada e um enorme anel de contador no dedo. A diferença de idade, o carro novo e as carícias públicas, evidenciavam também um caso de segundas núpcias ou romance recente.

Depois de um breve intervalo nas observações, quando dedicamos total concentração ao nosso lanche e um “retoque” na caipira. Eis que surge mais um notável par de veranistas. Um casal dos seus cinquenta anos, com mais de 1,80 m de altura, derramando flácidas e enormes “Bordas de Catupiry” na região da cintura. Ambos caminhavam determinados, totalmente despreocupados com suas barrigas enormes, mas administráveis para sua idade e condição de saúde. Foi nossa interpretação que estavam muito contentes com suas barrigas e peso corporal.

Em total contraste, acompanhamos a chegada e entrada na água de um surfista. O jovem estava acompanhado de sua mulher e filha. Evidentemente, o rapaz com uma preparação física de causar inveja ao Sylvester Stallone em seus dias de glória. A sua companheira, aparentemente a mãe de uma menina de um ano de idade, deveria ser professora de educação física ou algo similar, pois, também não aparentava sinais de barriga, e, na distância da observação o julgamento seria de um abdômen rígido. Esse conjunto de dados evidencia que pode existir parceria nos cuidados do corpo nos dois sexos, pelo menos entre os jovens. 

A próxima barriga a ser analisada foi a de um homem de barba branca que caminhava na praia de bermuda e tênis. Caminhava devagar exibindo sua barriga como um troféu alcançado com esforço, muita comida e cerveja. Uma enorme barriga, talvez um misto de todos os tipos conhecidos, tais como pneu, estresse, inchada e pochete. A despeito de se imaginar que alguma medida nutricional ou terapêutica devesse ser adotada, o homem mantinha suas lentas e orgulhosas passadas na orla marítima.

Encerrando a amostra analisada foi incluído um casal fisicamente ativo entre 30-40 anos de idade sem sobrepeso aparente. Chegaram na praia de bicicleta, tomaram banho de mar diversas vezes, indicando um preparo físico razoável para os seus pesos e idades. Ela apresentava pequeno acúmulo de gordura no baixo ventre, ele uma pochete flácida que ainda não atrapalhava os movimentos normais.

Uma análise geral dos dados indica que o tamanho e o tipo da barriga é inversamente proporcional à idade; diretamente proporcional à condição financeira no sexo masculino e inversamente no sexo feminino; inversamente proporcional ao estado civil no sexo feminino e completamente independente no masculino.

Assim, com base na análise dos detalhes dessas barrigas e de seus portadores é possível concluir que muito provavelmente o tamanho da barriga seja mesmo um indicador de qualidade de vida na espécie humana. E, finalmente, ainda é importante salientar que todas as inferências acima não tem nenhum embasamento anátomo-fisiológico e servem apenas para entretenimento de veranistas ociosos. 

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