Depois de um mês de janeiro extremamente quente, finalmente o verão está ameno na praia. O vento nordeste reaparece forte, trazendo com ele o verdadeiro clima do litoral sul do Brasil: mar escuro, água fria e areia fina voando. Complementando este cenário natural, quase todos os dias são vistos guarda-sois voadores, ou depois do primeiro voo, o famoso guarda-sol maneado, mantido em posição por um sistema de fixação improvisado com o material disponível; ou, ainda o guarda-sol detonado, completamente retorcido abandonado numa lixeira.
Nesses “flagrantes da vida real” surgem os veranistas experientes que desenvolvem técnicas altamente especializadas para produzir o almejado conforto para tomar a sua cervejinha gelada, acompanhando o farnel preparado antes de sair de casa ou o sofrido churrasco, preparado com o auxílio do vento a 50 km por hora.
Eram onze horas da manhã, o Nordestão estava implacável. Um casal estaciona o carro ainda limpo, indicando que eram recém chegados ao litoral. Saem do carro, inspecionam um local a uns 10 metros de distância, limpo, sem ninguém muito por perto. Trocam algumas palavras e decidem… é aqui!. A senhora retorna ao carro, voltando para o local do acampamento, com dificuldade de manter o chapéu na cabeça, mas já com um cachorrinho pela coleira, jornais e duas cadeiras de praia. O marido vai então ao carro e começa a trazer o equipamento totalmente desenvolvido na sua oficina particular: quatro suportes reguláveis, que aparentemente deveriam ser mantidos em pé por discos de embreagem usados. A cada viagem até o carro a sensação era que o nosso veranista ia cair ao passar sobre o monte de areia feito para delimitar a posição dos carros, em função do seu centro de gravidade alterado pela enorme barriga e a carga transportada.
Mas tudo era tecnologia, apareceu uma bombinha de areia, que implacável perfurou a terra úmida, sendo então colocados os quatro suportes, mantidos eretos com o auxílio das embreagens velhas e de estacas preparadas especialmente para a tarefa.
Mais uma viagem até o carro e eis que surge a cobertura. Um toldo de sombrite, possivelmente capaz de promover uns 86% de sombreamento, nos quatro cantos haviam sistemas de fixação compatíveis com os suportes já preparados. Após alguma conversa a dama foi encarregada de segurar um dos suportes, o que fez heroicamente durante uns 20 minutos com uma das mãos, pois a outra estava dedicada a guia do cachorrinho que assistia a cena pacientemente. Mesmo considerando toda a tecnologia aplicada o vento não deixava que o toldo ficasse na posição desejada. Até que o nosso heróico veranista atira tudo no chão e vai novamente para o carro.
O que ele estaria procurando, um martelo, uma marreta, mais “tecnologia”…
Depois de alguns minutos ele retorna de mãos vazias ao local do futuro convescote, liberando então a dama da tarefa de escorar o suporte, senta numa das cadeiras, acende um cigarro, abre a caixa térmica, pega uma cerveja e toma um largo trago, aparentemente sem se incomodar mais com o sol e o vento.
Quando fui para casa passei perto do carro e … a placa era de Bagé…
Muito bem descrito. Esse é o Cassinão que conheço. Parabéns pela forma divertida em retratar a situação.