Novas histórias de verão

O verão de 2022, iniciou com a Ômicron e muito calor no Sul… Mudanças climáticas?…. Que sei eu. Deve ser, eventos extremos… altas temperaturas e pouca chuva.

Fomos aproveitar um sábado de sol na nossa querida praia do Cassino. Tanta gente, mas tanta gente, que conseguimos lugar para estacionar apenas lá perto dos Molhes da Barra.
Depois da tradicional rotina diária do descarrego das cadeiras e colocação dos guarda-sóis, estavámos nós tomando mate, quando uns “vizinhos” chamaram minha atenção.
Era um grupo de mais ou menos uns 10 adultos e algumas crianças. Eram dois gazebos grandes, muitas cadeiras, algumas mesas, umas quantas caixas térmicas, certamente cheias de gelo e cerveja. Animava o grupo música gaúcha, como o “Tordilho Negro” interpretada pelos Serranos. Mas o ponto alto era uma churrasqueira de tonel, mas de tonel grande. E, na mesa ao lado, onde o experiente churrasqueiro preparava sua especialidade era possível ver uma pequena montanha de carne.
No preparo do fogo ele usou uns dez quilos de carvão, enquanto se tornava brasa ele espetava cortes de picanha, vazio, corações de frango, e, colocava numa grelha dúzias de salsichões para o aperitivo.
O grupo era muito tranquilo, os homens todos barrigudos, gordos e alegres. O Vô, um senhor muito sério, que ostentava uma cicatriz, possivelmente de remoção cirúrgica do rim esquerdo, olhava calmamente à “família”, de longe tomando uma cervejinha.
Enquanto a carne assava eu pensava: será que vem mais gente? É impossível essa turma comer toda essa carne. Nesse momento a situação era a seguinte. A churrasqueira cheia, fumegando e exalando aquele cheirinho da carne assando e, na mesa, ainda uns dez quilos de costela de gado cortadas em tiras de uns cinco centímetros.
Daí chega um vendedor de doces, o Vô vai lá e compra algumas caixas, e, muito amigavelmente, oferece um copo de refrigerante ao rapaz que o consome alegremente. Gente boa…
Em seguida observo o assador retirar os salsichões do fogo, experiente, com uma faca bem afiada ele fatia alguns metros de salsichão. Nesse momento entendi o porquê da quantidade de carne e do tamanho da churrasqueira. A turma ataca o salsichão de forma tão voraz, que em alguns minutos, o mestre assador já servia os coraçõezinhos para a família faminta.
Começo a me movimentar para casa e passo perto do grupo para dar uma olhadela. O nosso assador já iniciava a salgar as costelas de reserva… Certamente porque conhecia bem o seu time.

Corridas, posicionamentos e controvérsias

Na história da humanidade a crueldade, o esporte e o dinheiro sempre foram instrumentos de manipulação e poder, que acabam resultando em abuso, exploração e sofrimento de animais e até de outros homens. Nos dias de hoje notícias do sul do Brasil “Cachorros galgos são usados para corridas e são vítimas de maus tratos e abandono” e da Austrália  “2020 – 116 cavalos mortos – 1 a cada 3,2 dias” sempre motivam reações da opinião pública, independente da cultura local. 

Estamos frente a um tema sensível, complexo e multifacetado que eventualmente retorna à opinião pública, desencadeando verdadeiras tempestades de palpites e posicionamentos controversos e antagônicos. De um lado com as justificativas dos aficionados edos que se beneficiam economicamente com esses esportes e, de outro, os argumentos dos que abominam esses esportes por princípios e pelos supostos maus tratos para com os animais.

Este texto inclui uma breve revisão na bibliografia científica e em artigos de divulgação com o objetivo de promover alguma reflexão e racionalização sobre as corridas de Galgos.

O que se encontra na literatura

Revisando sobre “Greyhound racing” na ScienceDirect (www.sciencedirect.com) são encontrados 792 artigos publicados sobre o tema, sendo 66 nos últimos três anos. Encontram-se inúmeros artigos sobre problemas clínicos, patologias diversas e verminose em cães, principalmente nos Galgos. O outro tema prevalente é quanto ao bem-estar dos cães, onde se destaca a revisão de Polgár et al. (2019) sobre o bem-estar de cães mantidos em canis. O foco principal do estudo é que grandes populações de cães são mantidas em canis durante boa parte de sua vida, o que, dependendo dos padrões destes canis, pode afetar sua condição de bem-estar. Os ramos do conhecimento mais estudados incluem a fisiologia e o comportamento animal. No primeiro destacam-se tópicos como o estresse e cortisol, avaliações cardíacas, temperatura corporal e ainda resposta imune. Nos aspectos comportamentais os principais estudos se concentram em investigações sobre o medo, ansiedade, alterações cognitivas e habilidade de aprendizado.

Usando o filtro de relevância, destaca-se no Reino Unido um estudo post-mortem em 74 Galgos que apresentaram morte súbita, no qual os autores identificam associação entre hemorragia abdominal e traumatismo do músculo iliopsoas (Morey-Matamalas et al., 2020). Já na Australia, o estudo mais recente é sobre a prevenção de comportamento agressivo em cães Galgos adotados após sua retirada da indústria das corridas (Howell & Bennett, 2020). O que também já fora escopo de um levantamento efetuado na Itália sobre a manifestação de comportamento indesejado dos cães após sua adoção (Howell et al., 2018).

No PUBMED (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov) aparecem 266 publicações para as palavras-chave “Greyhound Racing” entre 1946 e 2020, sendo em média 5 por ano e com tendência de crescimento. O artigo mais recente trata de um estudo sobre o trajeto das pistas de corridas, concluindo que curvas clotóides (Espirais de Cornu) melhoram a dinâmica, a segurança e reduzem a ocorrência de lesões nos cães (Hossain et al., 2020). O segundo estudo na dimensão temporal foi publicado por Palmer et al. (2020) sobre as características das corridas e a vida útil dos Galgos de corrida na Nova Zelândia. Esses autores reiteram que o tema é sensível, indicando a preocupação com a melhoria das condições de bem-estar e o momento do descarte dos cães. Nas análises efetuadas em bancos de dados entre 2013 e 2016 foram anotadas 22.277 corridas, incluindo 2393 cães. Nesse conjunto de dados foi observada uma mediana de. 7 dias para o intervalo entre corridas, com uma amplitude entre quartis (IQR) de 4-10 dias. Já a duração da vida desportiva dos cães foi de 424 dias (IQR: 206-647), concluindo que cães de habilidades similares tinham duração similar da sua vida útil nas corridas.

Os Galgos e as corridas

Surfando na Internet aprende-se que uma corrida de Galgos é uma modalidade de esporte em que cães correm em pistas circulares ou ovais atrás de uma isca em movimento e que os espectadores apostam nos resultados. Na verdade não são quaisquer cães que participam dessas corridas. São cães reconhecidamente dessa raça, identificados, com treinamento, habilidades e fenótipos específicos para participarem das corridas.

Os Galgos (Greyhounds em inglês) são cães dóceis e humildes, que certamente preferem cochilar num tapete ou num canto de um galpão, à correr. Entretanto, os Galgos têm forte instinto de captura de presas que pode ser estimulado. Numa corrida os donos/treinadores colocam os cães no partidor e depois liberam a isca, um coelho mecânico. Os cães seguem a isca na pista, ou seja, atendem seu instinto de caçar sua presa. Até ai não teríamos muita crueldade, pois o procedimento é similar às corridas de cavalos, até com o atenuante que os cães não apanham enquanto perseguem a isca mecânica. 

Existem informações sobre o uso em épocas pregressas de iscas vivas, tendo sido relatado o uso de coelhos, porcos, cordeiros e galináceos (O’brien & Jacks, 2015 – https://www.theage.com.au/national/victoria/rabbits-among-live-animals-allegedly-used-as-bait-in-greyhound-racing-20150214-13et3y.html.), embora proibido, foi observado o uso ilegal de iscas vivas, ainda em 2015, em alguns locais na Australia. Nesses casos específicos os treinadores e proprietários foram responsabilizados e as pistas fechadas.

A partir do momento que os cães passam a ser vistos como uma fonte de renda, e, que, mesmo sem saber correm por suas vidas, as corridas tornam-se cruéis. Apenas os cães rápidos são mantidos nas pistas porque geram ganhos. Os lentos ou os que se machucam são sacrificados, muitas vezes sem os cuidados preconizados pela medicina veterinária. Os mais rápidos, ganhadores de muitas corridas, também podem não ter uma vida lá muito fácil, pois geralmente são mantidos em canis com pouco exercício e atenção entre as corridas. O negócio das corridas de Galgos é o que se poderia chamar de uma loteria genética na busca do cão mais rápido. Um negócio sem muitas regras, com incentivo para que os mais rápidos deixem maior número de filhos. Um levantamento em Victoria na Australia indicou que nasciam anualmente naquele Estado cerca de 7.500 Galgos, mas que apenas 1.000 alcançavam uma vida normal (https://reporter.anu.edu.au/informing-greyhound-debate). Esses dados reiteram o fato de que a maioria é sacrificada por baixa performance, lesões após as corridas e descarte após suas curtas carreiras  no esporte que duram entre 3 e 5 anos. 

Na Wikipedia se encontra a informação que na maioria dos locais essas corridas tem caráter amador e ocorrem apenas por diversão (https://en.wikipedia.org/wiki/Greyhound_racing). Presentemente o registro é de que essas corridas são oficializadas como jogo apenas na Australia, Republica da Irlanda, Macau, México, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Entretanto, na internet existem diversos sites de apostas em corridas de Galgos, movimentando desconhecido volume de dinheiro. Principalmente em função deste aspecto, as ações já desencadeadas para proibir esse esporte nem sempre tem muito sucesso. Assim, as alternativas têm sido relativas ao atendimento de normas de bem-estar animal e estímulo à criação de organizações com a finalidade de promover a adoção dos cães após sua aposentadoria como “atletas”, independentemente do motivo e ainda promover assistência adequada aos mesmos.

Bem-estar animal

Segundo o entendimento do Conselho Federal de Medicina Veterinária “o bem-estar de um indivíduo é o seu estado em relação às suas tentativas de se adaptar a seu ambiente”, para a Sociedade Americana de Medicina Veterinária significa que um animal está em homeostasia com as condições em que vive. Um animal em adequadas condições de bem-estar é saudável, confortável, bem-nutrido, seguro, tem condições de expressar seus instintos, não sofre dor, medo ou estresse. Um satisfatório estado de bem-estar requer planos de prevenção de doenças e seus tratamentos, adequadas condições de abrigo, manejo, nutrição, cuidados e de sacrifício dos animais, se for o caso. De forma simplificada o reconhecimento das condições de bem-estar pode ser feito pela presença das “Cinco Liberdades”: livre de fome e sede; livre de dor e doença; livre de desconforto; livre para expressar seu comportamento natural; e, livre de medo e estresse. 

Uma outra interessante definição de bem-estar animal foi apresentada por Spruijt et al. (2001), que consideraram como o balanço entre experiências ou estados afetivos positivos (recompensas, carinho) e negativos (estresse). Este estado afetivo pode ser temporário, variando de positivo (boas condições de bem-estar) à negativo (pobres condições de bem-estar) de acordo com as condições do ambiente, trazendo o conceito humano de economia entre o almejado e o oferecido. 

A “Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals” (RSPCA) é uma associação existente no Reino Unido e Australia, cuja finalidade é promover o bem-estar dos animais. Para a RSPCA aspectos importantes e desafiadores quanto ao bem-estar nas corridas de Galgos dizem respeito ao controle populacional, alta incidência de lesões, cansaço físico, canis inadequados, falta de socialização, treinamento, uso de iscas vivas ilegais, administração de substâncias proibidas, exportação de cães e destino indesejado, quanto ao descarte ou mesmo eutanásia (https://kb.rspca.org.au/knowledge-base/what-are-the-animal-welfare-issues-with-greyhound-racing/). Na Australia, milhares de Galgos nascem anualmente, sendo que cerca de 40% não recebem registro e nem são utilizados em corridas. Os animais enquadrados nessa classe caracterizam um descarte prévio à pistas. O descarte continua com os cães que deixam as pistas por baixo desempenho ou lesões. Ainda uma terceira etapa de descarte ocorre com os cães que não são eleitos para a reprodução, que podem ser adotados ou sacrificados. Segundo os dados da RSPCA Australiana milhares de cães saudáveis são submetidos anualmente à eutanásia. Um outro aspecto técnico conflitante no controle populacional e taxa de descarte é o uso de inseminação artificial, que pode promover ainda maiores taxas de descarte de cães. Esse procedimento, quando cirúrgico é invasivo e requer anestesia geral das cadelas, tendo sido proibido em alguns Países da Comunidade Européia (Is surgical artificial insemination still being offered? Vet Rec. 2020 Feb 8;186(5):141. doi: 10.1136/vr.m487. PMID: 32029656; Mason, 2018).

Entre os tópicos que afetam as condições de bem-estar merece destaque a administração de drogas proibidas no intuito de aumentar a performance dos cães durante as corridas. Existem listas de drogas proibidas e testes para sua identificação. Essas drogas podem determinar sérios efeitos físicos e psicológicos nos animais. Entre as principais drogas identificadas temos anfetaminas, metanfetaminas, cafeína, esteróides anabolizantes, Viagra, cocaína e até eritropoietina.

A RSPCA ainda considera importante o comércio internacional de cães Galgos  para corridas. Esses animais são comercializados continuadamente da Austrália para diversos países, tais como China e Vietnam. Em muitos casos esses animais são endereçados a grandes distâncias, sem garantias de boas condições no transporte e proteção no destino, inclusive o que já determinou alguns casos de suspensão de exportações.

Posicionamentos e controvérsias

O posicionamento da maioria das entidades de classe e dos organismos governamentais são semelhantes ao emitido pela Sociedade de Veterinária do Estado do Rio Grande do Sul, condenando a ocorrência de atos que atentem contra o bem-estar animal e que os mesmos devem ser investigados e os responsáveis identificados.

No Reino Unido, a regulamentação das práticas de bem-estar nas corridas de Galgos data de 2010, mas apenas em 2016 foram normatizadas e os seus custos estabelecidos. De forma resumida, os padrões mínimos estabelecidos, foram que  a responsabilidade de onde ocorrem as corridas é da autoridade local. Todas as corridas devem ter um veterinário presente, cada cão deve ser avaliado antes de cada corrida e caso seja considerado inapto não pode correr, devem ser fornecidas boas condições de trabalho ao veterinário, devem ser proporcionadas condições de conforto para os cães antes das corridas, apenas podem correr animais identificados com microchipe, tatuados e registrados no banco de dados nacional,  no qual devem ser mantidos os dados de cada cão em cada pista e os casos de lesões. Essas normas não incluíam as condições dos criatórios, das práticas dos treinadores e nem do transporte, descarte e eutanásia de cães. Mas foram consideradas satisfatórias uma vez que pelo menos consideravam os aspectos relativos às pistas (Racing greyhound regulations “successful” but still needed, says Defra. (2016). Veterinary Record, 179(12), 294–295. doi:10.1136/vr.i5022 (Vet Rec 179)).

Revisitando o material publicado e os diversos aspectos sem consenso e de foro pessoal sobre as corridas de Galgos, não se pode deixar de registrar a semelhança do que se passa com os cavalos. Sejam estes de corridas, ou mesmo de trabalho nas periferias das cidades quando não podem mais trabalhar. A alternativa de venda dos animais lesionados ou descartados para frigoríficos, com vistas a futuro consumo humano parece ser menos dramática e mais aceita pela opinião pública do que a simples eutanásia dos cães.

No Brasil, a venda de carne equina ainda é permitida por lei, mas a quantidade consumida é pequena. O negócio está fundamentado em exportações, principalmente para o Japão, Holanda, Bélgica e outros países europeus. O mercado externo procura carne desossada, congelada e vísceras, e, o interno absorve subprodutos tais como couros, ossos e crinas. 

No caso específico das reportagens e posicionamentos sobre as corridas de Galgos em Bagé, em manifestações posteriores surgem informações de que os cães que participam das corridas são identificados (microchipados), que veterinários envolvidos nunca se depararam com sinais evidentes de maus tratos e que as condições mínimas de bem-estar são atendidas. E ainda, o relato de um observador, que muitos criadores/treinadores não usufruem de uma melhor qualidade de vida em função das despesas com cuidados para com os seus cães.

Mitigação 

Mitigar significa intervir para reduzir ou remediar impactos nocivos de algum tipo de atividade humana, ou suavizar os efeitos de um dado evento. Neste contexto, fico imaginando como podemos racionalizar nossa relação com os animais, enquanto “evoluímos”, ou não; como sobreviventes num planeta com múltiplas culturas, instituições, crenças e seus “achômetros”. Aparentemente a forma mais simples e justa é a de aprender a respeitar a opinião dos demais sem acusações, sem polêmicas e sem a necessidade de réplicas para a imposição das verdades de cada um. Como complemento gostaria de trazer para reflexão duas frases de um saudoso amigo Antonio Carlos Pradel Azevedo: – A verdade é minha mentira mais atual; e, – Ser ético não significa apenas não pisar nos pés dos outros, mas, também, não deixar pisar no meu pé. Não sei de onde ele retirou essas frases, mas, ambas contém ensinamentos interessantes sobre posicionamento e argumentação, lembrando que cada um deve fazer aquilo que está ao seu alcance sem causar prejuízos aos demais. Isto, considerando, que a verdade de cada um deriva do entendimento de nosso conjunto de percepções, experiências, nível intelectual e cultural. 

Trago para reflexão um exemplo pessoal. No meu escritório conservo um quadro pintado pela minha mãe. Esse quadro retrata os dois melhores amigos da minha infância e adolescência: meu cavalo tostado “Apache” e meu cachorro “Pelé”. Esses dois animais foram importante estímulo para me tornar veterinário e, também, motivo de muitas lágrimas secretas na nossa separação. Quando comecei essa tarefa de me informar sobre o assunto das corridas de Galgos descobri que o grande mote para a minha já próxima aposentadoria será manter com as melhores condições possíveis, alguns cavalos e cães também “aposentados”. Certamente isso vai me proporcionar enorme prazer, contribuindo para aguçar boas lembranças da minha infância. 

Conclusões e considerações

As principais conclusões e considerações extraídas do material revisado  estão listadas abaixo. Evidentemente não esgotam o assunto, apenas tentam contribuir na percepção e julgamento do tema.

  • Existe preocupação da comunidade científica em estudar lesões, patologias e sua etiologia em cães Galgos ao redor do mundo;
  • Os estudos mais recentes estão se concentrando em aspectos cognitivos, psicológicos e comportamentais desses cães, notadamente após o encerramento de suas carreiras como atletas;
  • Por outro lado é possível encontrar estudos voltados a minimizar o potencial de lesões desses cães durante as corridas, através , por exemplo, de novos formatos de pistas;
  • É um tipo de esporte espalhado pelo mundo, proibido em alguns Países, com expressão em outros, e, que movimenta uma quantidade desconhecida de recursos;
  • Desperta sentimentos antagônicos sempre que são observados maus tratos com os animais envolvidos;
  • A despeito da repercussão econômica, normas razoavelmente severas já tem sido aplicadas para os processos do entorno das corridas, notadamente nos aspectos relativos ao bem-estar dos cães;
  • Ainda é possível identificar a necessidade de estimular àqueles que se importam com o bem-estar dos animais que colaborem na mitigação de atos do homem com relação aos animais.

Bibliografia consultada

Hossain MI, Eager D, Walker PD. Greyhound racing ideal trajectory path generation for straight to bend based on jerk rate minimization. Sci Rep. 2020 Apr 27;10(1):7088. doi: 10.1038/s41598-020-63678-1. PMID: 32341424; PMCID: PMC7184578.

Howell, T. J., Mongillo, P., Giacomini, G., & Marinelli, L. (2018). A survey of undesirable behaviors expressed by ex-racing greyhounds adopted in Italy. Journal of Veterinary Behavior, 27, 15–22. https://doi.org/https://doi.org/10.1016/j.jveb.2018.05.011.

Howell, T. J., & Bennett, P. C. (2020). Preventing predatory behaviour in greyhounds retired from the racing industry: Expert opinions collected using a survey and interviews. Applied Animal Behaviour Science, 226, 104988. https://doi.org/https://doi.org/10.1016/j.applanim.2020.104988.

Mason SJ. Current Review of Artificial Insemination in Dogs. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2018 Jul;48(4):567-580. doi: 10.1016/j.cvsm.2018.02.005. Epub 2018 Apr 19. PMID: 29680455.

Morey-Matamalas, A., Corbetta, D., Waine, K., Payne, R., Grau-Roma, L., & Baiker, K. (2020). Exercise-induced Acute Abdominal Haemorrhage due to Iliopsoas Trauma in Racing Greyhounds. Journal of Comparative Pathology, 177, 42–46. https://doi.org/https://doi.org/10.1016/j.jcpa.2020.04.001.

Palmer AL, Bolwell CF, Stafford KJ, Gal A, Rogers CW. Patterns of Racing and Career Duration of Racing Greyhounds in New Zealand. Animals (Basel). 2020 May 5;10(5):796. doi: 10.3390/ani10050796. PMID: 32380681; PMCID: PMC7278431.

Polgár, Z., Blackwell, E. J., & Rooney, N. J. (2019). Assessing the welfare of kennelled dogs—A review of animal-based measures. Applied Animal Behaviour Science, 213, 1–13. https://doi.org/https://doi.org/10.1016/j.applanim.2019.02.013.

Spruijt, B. M., Van den Bos, R., & Pijlman, F. T. A. (2001). A concept of welfare based on reward evaluating mechanisms in the brain: Anticipatory behaviour as an indicator for the state of reward systems. Applied Animal Behaviour Science, 72(2), 145–171. https://doi.org/10.1016/S0168-1591(00)00204-5

A barriga e nossa qualidade de vida

Sol, céu azul, pouco vento, mar azul esverdeado e ondas de espuma branca estimulam passar o dia na praia. As famílias se organizam debaixo de guarda-sóis ou gazebos, com alguns metros de distância entre os pequenos grupos para evitar contágio do famigerado SARS-CoV-2. A maioria traz seus próprios lanches e aperitivos para a praia, evitando assim, ao máximo, o contato com outras pessoas. Bem, mas alguma coisa temos que fazer para o tempo passar!  Minha principal atividade foi observar quem passa, os grupos vizinhos, o que conversam, o que bebem, o que comem, enfim o pequeno mundo à nossa volta. De repente minha prima levanta uma importante questão para o momento: a barriga é (ou pode ser considerada) um indicador de qualidade de vida? 

Dei início então a um experimento observacional, bastante questionável pela falta de um grupo controle e de uma metodologia pré-definida. Para uma re-análise futura e interpretação do ensaio os dados colhidos na amostra estão descritos a seguir.

A primeira barriga observada foi de uma linda menina de uns 20 anos, cabelos loiros compridos, caminhava só, como se estivesse em uma passarela, muito possivelmente ainda nem tivera um namorado “de compromisso”, constatamos de longe uma barriga lisinha de causar inveja a qualquer fisiculturista.

A segunda barriga feminina avaliada tinha sua contraparte masculina. Tratava-se de uma jovem de uns 30 anos, caminhando de mãos  dadas com um rapaz de óculos, barba e uma camiseta comprada em uma viagem à Bahia. Todo o indicativo era de que estávamos frente a um casal em fase inicial de compromisso, muito possivelmente já noivos com planos para um futuro juntos. Em ambos foi observado um leve início de proeminência abdominal, muito possivelmente flácido, pois não foi incluída nenhuma palpação na metodologia do estudo.

Quase que simultaneamente passa uma senhora com todos os indicativos de “mais de 50”, solteira ou viúva, caminhando também só, com passos firmes e determinados de quem vai a algum lugar, mas que não sabe qual é. A sua barriga era enorme, firme e bicuda, ocupando toda a região abdominal.

Depois de alguns goles de caipira na sombra, analiso o quarto conjunto de barrigas. Um casal aparentemente com mais de 60 anos. Ele com uma firme barriga intra-abdominal e canelas finas, ela de barriga chapada, mas vestindo um maiô. Todos os indicativos eram de que o casal tinha um boa situação financeira e ela teria feito uma abdominoplastia e lipoaspiração recente. O que gerou também uma outra questão. Porque o maiô, e, não os atuais biquinis de uso geral pelas mulheres de todas as idades? Teria o cirurgião esquecido de colocar o umbigo no lugar?

No calor da discussão sobre essa dúvida atroz, passa um casal entre 35-45 anos. Nessa faixa etária qualquer estimativa de idade é difícil. Entretanto, pela aparência das três crianças que os acompanhavam era possível inferir que se tratava de um casal já com uns 10 anos de casamento. O dramático seria pensar que essa união não deveria durar muito tempo. Isto, considerando a barriga enorme e flácida da “esposa”, que inclusive escondia parte da calcinha do biquini, contrastando com o visual descolado do “marido”, bronzeado, barriga sarada e com uma enorme tatuagem no ombro esquerdo.

O sexto conjunto de dados estava bem ao lado de nosso guarda-sol. Uma rápida análise nos fenótipos, já evidenciava a grande disparidade etária do casal. Ela entre 30-40 anos, sem demonstrar sinais de flacidez abdominal nem de barriga notável, provavelmente pelo fato de ainda não ter tido filhos. Já ele, com mais de 60 anos, com uma barriga bem pronunciada e um enorme anel de contador no dedo. A diferença de idade, o carro novo e as carícias públicas, evidenciavam também um caso de segundas núpcias ou romance recente.

Depois de um breve intervalo nas observações, quando dedicamos total concentração ao nosso lanche e um “retoque” na caipira. Eis que surge mais um notável par de veranistas. Um casal dos seus cinquenta anos, com mais de 1,80 m de altura, derramando flácidas e enormes “Bordas de Catupiry” na região da cintura. Ambos caminhavam determinados, totalmente despreocupados com suas barrigas enormes, mas administráveis para sua idade e condição de saúde. Foi nossa interpretação que estavam muito contentes com suas barrigas e peso corporal.

Em total contraste, acompanhamos a chegada e entrada na água de um surfista. O jovem estava acompanhado de sua mulher e filha. Evidentemente, o rapaz com uma preparação física de causar inveja ao Sylvester Stallone em seus dias de glória. A sua companheira, aparentemente a mãe de uma menina de um ano de idade, deveria ser professora de educação física ou algo similar, pois, também não aparentava sinais de barriga, e, na distância da observação o julgamento seria de um abdômen rígido. Esse conjunto de dados evidencia que pode existir parceria nos cuidados do corpo nos dois sexos, pelo menos entre os jovens. 

A próxima barriga a ser analisada foi a de um homem de barba branca que caminhava na praia de bermuda e tênis. Caminhava devagar exibindo sua barriga como um troféu alcançado com esforço, muita comida e cerveja. Uma enorme barriga, talvez um misto de todos os tipos conhecidos, tais como pneu, estresse, inchada e pochete. A despeito de se imaginar que alguma medida nutricional ou terapêutica devesse ser adotada, o homem mantinha suas lentas e orgulhosas passadas na orla marítima.

Encerrando a amostra analisada foi incluído um casal fisicamente ativo entre 30-40 anos de idade sem sobrepeso aparente. Chegaram na praia de bicicleta, tomaram banho de mar diversas vezes, indicando um preparo físico razoável para os seus pesos e idades. Ela apresentava pequeno acúmulo de gordura no baixo ventre, ele uma pochete flácida que ainda não atrapalhava os movimentos normais.

Uma análise geral dos dados indica que o tamanho e o tipo da barriga é inversamente proporcional à idade; diretamente proporcional à condição financeira no sexo masculino e inversamente no sexo feminino; inversamente proporcional ao estado civil no sexo feminino e completamente independente no masculino.

Assim, com base na análise dos detalhes dessas barrigas e de seus portadores é possível concluir que muito provavelmente o tamanho da barriga seja mesmo um indicador de qualidade de vida na espécie humana. E, finalmente, ainda é importante salientar que todas as inferências acima não tem nenhum embasamento anátomo-fisiológico e servem apenas para entretenimento de veranistas ociosos. 

SOBAVE. “web-mate”

Fui procurar correspondências antigas da SOBAVE no meu computador e achei esse arquivo com o logotipo da SOBAVE. Muito simples, mas com o essencial, sociedade, bageense e veterinária. Essa marca me traz boas lembranças. 

Vim trabalhar em Bagé no final do ano de 1978, como veterinário no Instituto José Guisolfi da Faculdade de Veterinária da Fundação Áttila Taborda. O Instituto funcionava num prédio da Cooperativa Bageense de Lãs como um laboratório local de diagnóstico, oferecendo suporte aos associados da Cooperativa e aos veterinários da região. Na infraestrutura física, não sei, se pensado, ou por acaso, tínhamos uma sala de reuniões com 50 lugares, com cadeiras confortáveis para aulas, seminários e reuniões. Até os anos 90 o Instituto foi a sede, a base logística da SOBAVE. A Sociedade promovia diversos eventos técnico-científicos ao longo de cada ano. Em torno do dia de 9 de setembro, jantares alegres em comemoração ao dia do Veterinário, dos quais participavam dezenas de pessoas, mas o que mais fica na saudade eram os seminários técnicos. O Simpósio Prata da Casa, em que eram convidados apenas veterinários bageenses para trazerem suas experiências profissionais e o Simpósio SOBAVE (ou algo assim), em que eram convidados destacados colegas para promover o conhecimento sobre temas relevantes para a medicina veterinária.

Naquela época em Bagé residiam mais de 150 veterinários, praticamente todos eram sócios da SOBAVE e relacionados entre si pela participação nas promoções da sociedade. Havia um grande espírito de cooperação, sempre colaborávamos com os colegas nos diagnósticos e na solução de problemas nas propriedades de seus clientes. No final de cada seminário mensal geralmente nos reuníamos na churrascaria do Arlindo e sob os olhares atentos do Agripino, saboreávamos a melhor costela do mundo, uma boa cerveja e desfrutávamos de grande companheirismo.

Tudo mudou. As atividades e dificuldades crescentes nos anos que se seguiram, praticamente abortaram essa convivência saudável dos veterinários em torno da SOBAVE. Nós envelhecemos, nos acomodamos, nos tornamos egoístas e certamente mais tristes do que naqueles anos de ouro da veterinária em Bagé.

Será isso? Onde estão os veterinários de 25-35 anos, como estão interagindo entre eles, como fazem para ter o apoio dos colegas para solucionar seus problemas de trabalho? Celular? WhatsApp? Face book? Google? Trabalham sozinhos? EAD? Todas são questões de um “naftalina”, que um dia já foi jovem e muito apreciou o convívio dos integrantes da SOBAVE.

Trago como um exemplo da importância de jovens assumirem a direção de uma associação, o que hoje se constata no Cantegril Clube de Bagé. Há dez anos atrás estava vazio, pouco frequentado, com dívidas, uma triste história. Hoje pujante, lindo, bem arrumado e com crianças brincando na medida que a pandemia de Covid-19 permite. 

Tudo mudou. Mas podemos recomeçar, ou pelo menos tentar renovar a SOBAVE, estimular que os jovens organizem uma nova SOBAVE, para as centenas de veterinários que hoje trabalham na nossa cidade. 

Concluo esse meu lamento com um convite e um apelo para os veterinários de Bagé. Vamos nos encontrar para um “web-mate” às 19:00 h do dia 9 de setembro no Facebook da SOBAVE.

O web-mate aconteceu e agora a SOBAVE tem uma nova e atuante Diretoria que certamente vai promover a interação dos veterinários de Bagé a partir de 2020.

Pneu

Na Wikipédia a descrição é de que o pneu é um artefato circular feito de borracha para uso em automóveis, caminhões, aviões, motos, bicicletas, etc. Geralmente é preto pela adição de fuligem na borracha, para a redução do desgaste. Essa é uma realidade objetiva que todos concordamos, entretanto, também, aceitamos que pelo formato um pneu pode descrever o zero: um conjunto vazio, o nada e até quem sabe para descrever algum tipo de insucesso em nossas vidas.

Na minha juventude, durante o curso ginasial tive um professor, verdadeiro profissional, chamado Juvenal Dias da Costa Vidal, que para manter o interesse da turma pelo estudo da Geografia, antes de cada período de aula, arguia ao acaso, entre três a cinco alunos. Para a nota do período todos tínhamos que responder até cinco questões. Sempre que alguém não conseguia responder ou errava, o “Juvenal” ironizava: “Pneu para ti!”. O grande risco era ir juntando pneus.

No início da década de 90 comecei a frequentar o “Grupo dos Velhos” no Cantegril Clube de Bagé. Era muito difícil ser aceito no grupo que se juntava para jogar tênis de duplas todas as quintas feiras. Os recém iniciados no esporte eram chamados de “emergentes”, pelo saudoso Edmundo Rodrigues. A iniciativa, que teve diversos lideres, evoluiu rapidamente para o então “Grupo do Pneu”. Naquela época a dupla que perdia um set por 6:0, na hora da janta assinava um certificado admitindo o “Pneu”. Rapidamente terminou o estoque dos certificados, pois os mais espertos se organizavam para pegar os neófitos e aplicar-lhes um “Pneu”. Mas a brincadeira evoluiu e se tornou um verdadeiro folclore do Clube, uma confraria informal, que hoje têm um livro de atas, controlado pelo Roberto Cachapuz, onde são registrados os menus e os “Pneus do Dia”.

Nos últimos anos temos tido poucos “emergentes” e baixas naturais pelo envelhecimento do grupo. Muitos se afastaram devido a alguma brincadeira de mau gosto, a alguma janta cara de qualidade questionável etc. Mas de qualquer forma o “Pneu” continua com o apoio da Roseli que confirma os participantes da janta cada semana, para organizar o menu e evitar desperdício.

Sugiro que se estimule a participação de novos “emergentes” para que o nosso Clube do Pneu continue por outros vinte anos, mesmo que eventualmente alguém se magoe com um pneu, com uma bola na fita dada como fora, ou com pouca carne na panela para os que resolveram jogar mais um “set”. Esses são os detalhes de nossa confraria que garante a integração semanal dos “velhinhos” do tênis no Cantegril que jogam pouco, mas comemoram e contam a façanha de cada bola fantástica eventual. Pois todos sabemos que depois de uma bela jogada, vem sempre uma bela … Assim, a conclusão é que o pneu tem realmente alguma fórmula mágica para contribuir para o sucesso nas nossas vidas.

Seguem algumas fotos que não sei autoria, mas resolvi anexar para ficar na nossa história.

Um 2017 “melhorzinho” para o Grupo do Pneu.

decada-de-90-peixe-funari

Década de 90 – Almoço – Famoso peixe pescado pelo José Funari.

decada-de-90-churrasco-no-maria%cc%83o

Década de 90 – Almoço – Churrasco no Piraí patrocinado pelo Mario Castro.

pneu-em-2016-1

Jantar semanal em 2016

jantar-na-toca-do-lobo

Jantar na Toca do Lobo patrocinado pelo Ricardo Lucas em 2016

jantar-gourmet

Jantar “Gourmet”para encerrar 2016.

A ameaça aérea

Os sistemas de produção de ovinos têm sido melhorados desde o início do século passado com avanços em praticamente todos os segmentos, com a introdução de práticas, que se empregadas continuadamente, podem promover aumento na natalidade e redução na taxa de mortalidade. No entanto, por mais que seja feito, sempre surge algo novo para as ovelhas cumprirem seu destino – morrer.

Em outro texto apresentei algumas soluções para “O controle dos ataques de cães aos ovinos”. As expensas de muito cuidado diário, potreiros telados e uso de algumas das alternativas descritas, finalmente se consegue reduzir a mortalidade de cordeiros pelos ataques de cães errantes. Mas a predação à criação de ovinos é como os “The Walking Dead” sempre surge mais um… Os novos inimigos que aumentam em importância nos últimos anos são as aves de rapina.

Um exemplo alarmante da predação pelos caranchos e urubus foi verificado num rebanho de 61 ovelhas prolíficas durante o mês de setembro de 2016. No total nasceram 158 cordeiros, indicando uma taxa superior a 2,5 cordeiros por ovelha. Entre estes 36 (23%) nascidos de partos duplos, triplos e até quádruplos foram atacados, mortos e até carregados de junto do rebanho pelos rapinantes.

Aparentemente é o trabalho de uma gang composta por urubus e falcões. Os urubus cabeça vermelha (Cathartes aura) chegam logo após o parto das primeiras ovelhas, com a desculpa legítima de que apenas fazem parte do departamento de limpeza, comendo os restos das placentas que ficam no campo. Mas, o nascimento dos cordeiros chama a atenção de outros membros dessa gang: os urubus cabeça preta (Coragyps atratus) e os caranchos (Caracara plancus) que ficam na espreita do nascimento de cordeiros fracos, nascidos de partos triplos, para o seu ataque, que se completa com a ação dos pequenos oportunistas chimangos (Milvago chimango). Inicialmente o ataque é tímido, mas vai tomando proporções desesperadoras para as ovelhas, que não conseguem mais afugentar os agressores de suas crias ainda indefesas, e, para o homem que tem a seu encargo cuidar das ovelhas.

Numa alusão filosófica à relação entre o bem e o mal, imagino que deveríamos – sim –   condenar a ação das aves de rapina, nos posicionando como os protetores das ovelhas que criamos para alimento, abrigo e vantagens econômicas da nossa cínica Civilização. A forma menos destrutiva ao ambiente para uma tomada de posição é estudar o assunto, mesmo com a visão míope de um veterinário que sempre trabalhou com foco na produção animal.

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção é um inventário criado em 1964 pela IUCN (“The International Union for Conservation of Nature”- http://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2012-1.RLTS.T22696264A40310499.en) que edita com periodicidade variável o estado de conservação das espécies encontradas na natureza. No Rio Grande do Sul essa lista é exibida juntamente com outras informações sobre a biodiversidade pela Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. A lista inclui informação sobre praticamente todos os grupos taxonômicos do planeta, estratificados em três níveis principais: primeiro, quanto a sua avaliação (sim ou não); segundo, quanto a disponibilidade de dados (adequados ou insuficientes); e, terceiro, quanto ao risco de extinção em função dos dados disponíveis. Neste último extrato cada espécie pode ser enquadrada em uma das seguintes situações: extinta, extinta na natureza, sob risco crítico de extinção, sob risco, vulnerável, próxima a risco de extinção e de baixo risco. Neste contexto, as nossas rapinantes foram classificadas como de baixo risco, com um adequado volume de informações disponíveis (http://www.avesderapinabrasil.com/index.htm; http://globalraptors.org/grin/indexAlt.asp, https://secweb.procergs.com.br/livlof/?id_modulo=1&id_uf=23&ano=2012 ), não sendo, portanto, incluídas entre as aves de rapina ameaçadas de extinção em nosso meio. Essa classificação, deve deixar, portanto, alguma margem de manobra para tentar modificar a relação presa predador que está se instalando e não interessa à ovinocultura como atividade econômica.

Na região da Campanha do Rio Grande do Sul o carancho é a ave de rapina que mais tem pressionado negativamente as criações de ovinos durante os períodos de parição. Isso se deve provavelmente ao fato de que o carancho combina o instinto rapinante das águias, com a necrofagia do urubu e ainda se caracteriza por ser uma ave de habitats amplos incluindo, pastagens, desertos, vegetação arbustiva e matas.

O carancho constrói seus ninhos geralmente em árvores de grande porte, autóctones ou plantadas, a postura é de 3 a 4 ovos em dias alternados, incubados durante 30 dias, os filhotes são alimentados durante uns 50 dias entre os meses de junho a dezembro. São generalistas na alimentação, que inclui carcaças de animais mortos e artrópodes. Os adultos consomem prioritariamente artrópodes, mas carregam presas maiores para os ninhos, o que é plenamente coerente com o desaparecimento dos cordeiros recém-nascidos vivos ou mortos. Aliado a este fato, foi observada mudança na sua dieta durante a temporada reprodutiva, caracterizada por uma redução na seletividade e uma tendência a um menor consumo de artrópodes. Estes estudos são feitos pela avaliação de egagóprilas, que são bolas de restos de alimentos regurgitados pelas aves não digeridos. Através dessa metodologia também foram observados restos de ovinos na dieta do Chimango durante o período reprodutivo desta ave, entre os meses de novembro a março.

Efetivamente o tema requer estudos mais aprofundados sobre os artrópodes, a biodiversidade e os efeitos antropogênicos nessa exacerbada predação dos ovinos pelos rapinantes. O que pode ser até escopo de pesquisa com foco na continuidade da pecuária na nossa região.

Um estudo na Patagônia Argentina evidenciou que os maiores mamíferos encontrados na dieta dos caranchos são realmente os ovinos, fato explicável pela maior taxa de abandono de carcaças de ovinos no campo, em comparação as de bovinos, onde ambas as espécies são criadas em conjunto.

Uma possível explicação para o aumento da predação dos ovinos pode ser a redução, ou mesmo, a atual realocação dos rebanhos de bovinos e ovinos no Rio Grande do Sul, associadas as mudanças no uso da terra e desenvolvimento urbano, caracterizados pelo aumento das áreas de lavouras e crescimento da periferia das cidades do interior. Nestas condições pode entrar em desequilíbrio a disponibilidade de habitats para aves jovens e adultas, determinando o aumento da predação de ovinos vivos recém-nascidos em locais marginais próximos a centros urbanos. Além disso, essas aves apresentam baixa neofobia, que seria a demonstração de pavor ou medo a situações novas ou não familiares, o que determina seu alto potencial adaptativo frente a modificações ambientais. Um exemplo interessante é um estudo sobre efeitos individuais e da idade, na neofobia do predador Neotropical (Milvago chimango), ou seja, na sua capacidade exploratória e de resolver problemas. Os resultados indicaram uma importante tendência exploratória, baixa neofobia e habilidade em inovar. Essas características devem ser vantajosas para o comportamento generalista e de predador oportunista do Chimango, que determinam seu sucesso em termos ecológicos.

Como reagimos à predação pelas aves de rapina – na grande maioria dos casos, quando os ataques não são muito prevalentes, nada se faz. Quando aumenta o percentual de animais mortos as primeiras reações são de espantar as aves com foguetes ou tiros, ou mesmo o uso de veneno nas carcaças. Essas ações de perseguição humana direta têm baixo resultado, considerando a origem distinta do problema.

A ideia de compartilhar esse texto é de ouvir a “Voz do povo”, ou seja, a de buscar conhecimentos ou alternativas para enfrentar o problema no futuro incluindo as sugestões de um maior número de pessoas. De nossa parte foi construída uma composteira para depósito das carcaças de cordeiros mortos, cujo sucesso foi considerado apenas como razoável, já que o momento preferencial do ataque dos rapinantes é durante ou logo após o parto das ovelhas. Evidentemente soluções de maior custo podem ser imaginadas, como a construção de galpões para os partos das ovelhas e os primeiros dias dos cordeiros, mas que no mundo real são pouco viáveis.

Numa reflexão mais ampla sobre o futuro da produção animal sustentável nestas regiões sensíveis, poderia ser imaginada a criação de uma política contrária ao avanço das fronteiras dos cultivos agrícolas e consequente redução das tradicionais áreas de campo onde convivem os bovinos, os ovinos e os nossos aventureiros voadores.

Bibliografia consultada:

Biondi, L.M.; Guido, J.M.; Bo, M.S.; Muzio, R.N.; Vassallo, A.I. The role of stimulus complexity, age and experience in the expression of exploratory behaviour
in the Chimango Caracara, Milvago chimango. Anim Cogn
DOI 10.1007/s10071-014-0785-5, 2014.

Dwyer, J.F.; Fraser, J.D.; Morrison, J.L. Range sizes and habitat use of non-breeding Crested Caracaras in Florida. J. Field Ornithol. 84(3):223–233, 2013.

Gavier-Pizarro, G.I.; Calamari, N.C.; Thompson, J.J.; Canavelli, S.B.; Solari, L.M.; Decarre, J.; Goijman, A.P.; Suarez, R.P.; Bernardos, J.N.; Zaccagnini, M.E. Expansion and intensification of row crop agriculture in the Pampas and Espinal of Argentina can reduce ecosystem service provision by changing avian density. Agriculture, Ecosystems and Environment, 154: 44-55, 2012.

Salvador, S.A. Reproducción del Carancho (Caracara plancus) em Villa Maria, Córdoba, Argentina. Xolmis, 27: 1-5, 2013.

Solaro, C.; Sarasola, C.H. First observation of infanticide and cannibalism in nest of Chimango Caracara (Milvago chimango). Journal of Raptor Research, 46: 412-413, 2012.

Menq, W. (2016) Carancho (Caracara plancus) – Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/milvago_chimango > Acesso em: 13 de Novembro de 2016.

Menq, W. (2016) Chimango (Milvago chimango) – Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/milvago_chimango > Acesso em: 20 de Novembro de 2016.

Menq, W. (2016) Urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) – Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/cathartes_aura.htm > Acesso em: 20 de Novembro de 2016.

Menq, W. (2016) Urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) – Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/coragyps_atratus.htm > Acesso em: 20 de Novembro de 2016.

Travaini, A.; Donázar, J. A.; Ceballos, O.; Hiraldo, F. Food habits of the Crested Caracara (Caracara plancus) in the Andean Patagonia: the role of breeding constraints. Journal of Arid Environments, 48: 211–219, 2001.

Os sagus do Rio Grande

Este titulo é uma homenagem a um amigo, que há muitos anos vem provando os pastéis de todas as rodoviárias por onde passa, para então um dia escrever o livro que deverá ser intitulado “Os pastéis do Rio Grande”.

O que é o sagu. Os jovens de hoje são facilmente enganados com a questão sobre o nome da árvore que dá o sagu. A nossa enciclopédia rápida Wikipédia relata que é a farinha extraída de palmeiras como a Metroxylon sagu e a Cycas revoluta, servindo de base na alimentação na China, Coréias, Japão, Taiwan e outros países do Extremo Oriente. Mas o nosso sagu, aquelas pequenas pérolas brancas são feitas mesmo do amido da mandioca.

Ao contrário de muita gente adoro sagu, em todos os restaurantes que vou, provo o sagu. Desde o tradicional com vinho até outros sabores mais raros com leite, com laranja e até mesmo o famigerado sagu com “Qsuco”.  Também contrariando a maioria das pessoas gosto do sagu puro, sem creme ou leite condensado, para sentir o puro sabor do sagu.

O sagu “aguadinho”, é aquele que sempre pinga ou na mesa ou no peito do indivíduo, é uma delícia, principalmente quando é bem doce.

O sagu “seco” feito no dia anterior, como ficou a noite na geladeira hidrata e dobra de tamanho, é meio viscoso, as vezes cai da colher, é uma sobremesa para aventureiros.

O sagu de “borracho” é aquele carregado no vinho, que tem gente que sempre repete, o perigo é depois pegar a estrada e ser pego no bafômetro. Eheh… brincadeira.

O sagu de “abstêmio” é o próprio; feito com groselha, “Qsuco”, “Tang” etc. Estes só são consumidos por verdadeiros aficionados do sagu como eu. É a sobremesa que sempre sobra nos restaurantes de beira de estrada.

O sagu “malfeito” é aquele que pouca gente se anima a provar, ainda está branquinho no centro e o molho é aquele que pinga nas calças do comensal.

O sagu com “sorvete” especialidade da Sociedade Italiana de Bagé, é algo indescritível, carregado no vinho, servido ainda quente, numa taça, com uma generosa bola de sorvete de creme no centro. Realmente é uma imagem e um sabor inesquecível.

Sagu com “leite”, especialidade da minha Dinda, sobremesa inesquecível, essa sim, como com bastante canela em pó.

O sagu com “laranja” é uma sobremesa agridoce, delícia, nem sempre compreendida por todo mundo.

O sagu “fantástico”, é o meu. Que por mais incrível que pareça aprendi com a minha sogra, que nunca conseguiu reproduzir igual.

Aí vai a receita.

Inicia com a fervura de uma panela d’água. Em seguida coloca-se a quantidade desejada de sagu. Logo que novamente levanta fervura, pode-se desligar o fogo. Na sequencia o sagu vai para um coador de massa e remove-se todo o amido excedente com água fria diretamente da torneira. Em seguida o sagu numa travessa juntamente com o mesmo volume de água fria vai para a geladeira durante a noite. No dia seguinte, coloca-se para ferver numa panela o vinho “saguzeiro”, açúcar a gosto e o sagu já hidratado. Convém homogeneizar bem o sagu com a água que restou e se for pouca podemos até acrescentar mais. A quantidade de água é o segredo e o sucesso da receita que se apronta agora rapidamente.

Essa delícia é servida fria, com ou sem molho conforme o gosto do consumidor.

Espero que esse conto mantenha viva a boa imagem do sagu como a sobremesa mais comum nos restaurantes que servem comida por peso no nosso Brasil.

O controle dos ataques de cães aos ovinos

Os inimigos naturais dos ovinos são as verminoses gastrintestinais, o abigeato e os ataques de predadores. Nos últimos sessenta anos diversas ações foram efetuadas na busca de tecnologias para o controle das verminoses. Essas ações nem sempre foram um sucesso, mas podemos ter certeza que muita coisa efetiva foi feita. Quanto ao abigeato, acompanhamos o agravamento do problema, associado à redução dos rebanhos, à má distribuição da renda no País e ao aumento do desemprego nas periferias das cidades do Interior. O terceiro inimigo também com incidência aleatória é a predação por cães vadios, sorros, caranchos e urubus.

O ataque de cães e outros carnívoros aos rebanhos ovinos no Rio Grande do Sul é uma das principais causas de perdas na produção e de desestímulo à ovinocultura. E o que temos feito sobre o assunto? Tem sido como falar do tempo, muito se fala e nada se pode fazer!  Depois de cada novo ataque ao rebanho apenas é renovada minha fúria interior contra os cães matadores de ovelhas e, eu não faço nada! Até que achei na internet um artigo do veterinário Antonio Oliveira Lobão intitulado “Os cães e as ovelhas” onde ele aborda de forma simples e clara algo que tinha esquecido, a natureza de caçador e os aspectos evolutivos dos cães e suas presas, justificando porque cães bem alimentados, perseguem, mordem e até matam as ovelhas. Evidentemente esse “brinquedo” dos cães é a fonte do terror das ovelhas cujo temperamento pacífico e a falta de armas para defesa tem como única alternativa correr, correr até a exaustão, quando então os cães as mordem para estimular uma nova corrida. Diversos níveis de lesões são provocados pelo terrível brinquedo dos cães, desde estresse, ferimentos nas orelhas, paletas e quartos até a morte, quando ocorrem excessos nas brincadeiras. Excessos que geralmente surgem quando muitos cães estão envolvidos na brincadeira. Por incrível que possa parecer o trocadilho, o Dr. Lobão recomenda que devemos proteger as vítimas (as ovelhas) em instalações adequadas, manter vigilância humana constante ou de cães pastores. E ainda sabiamente alerta que: “Matar ou bater num cão que possui um forte instinto de caçador pode parecer a solução, mas não é! Esta providência é passageira ou temporária, pois outros cães, com o mesmo instinto, virão procurar as ovelhas”.

Neste contexto, é importante buscar uma solução, trocar a estratégia, não mais falar do “tempo”, mas sim, estudar o assunto que não deve ser peculiaridade de um dado local. O objetivo desse manuscrito é de sintetizar uma breve revisão sobre alternativas para não inviabilizar a criação de ovelhas (“as presas”) sob a ameaça constante de predadores carnívoros.

Alternativas para redução da predação pelos carnívoros

A maioria dos exemplos a seguir são utilizados nos Estados Unidos, onde a conservação de algumas espécies de carnívoros em parques nacionais, reservas e periferias de pequenas cidades vem gerando conflitos com os homens e suas criações. Na tentativa de mitigar os ataques dos predadores às criações têm sido indicadas medidas para desestimular ou afugentar os predadores.

Entre as alternativas que desestimulam os predadores destacam-se:

  1. Construção de abrigos para os animais, onde as ovelhas são colocadas à noite ou durante os períodos de parição. Essa alternativa é factível para rebanhos pequenos, constituídos de animais de alto valor individual;
  2. Cercas construídas com telas que reduzem o acesso dos predadores, essa alternativa contribui para a redução da predação, entretanto, requer constante manutenção, pois, quando os cães conseguem acessar o perímetro telado os ataques passam a ser frequentes e intensos;
  3. Uso de bandeirolas para desestimular o ingresso dos predadores em uma área fechada. Prática empregada para espantar canídeos, que nem sempre funciona bem para todas as espécies de predadores. A prática é de baixa utilidade para aves de rapina, sendo que os canídeos se adaptam ao estímulo num período de 60 dias;
  4. Uso do “colar do rei” um colar colocado em alguns ovinos, na região da jugular, local preferencial do ataque de coiotes e chacais. Esse aparato pode conter algum tipo de veneno leve, como o cloreto de lítio, para desestimular novos ataques. É um sistema razoavelmente seguro, apenas ativado pelo ataque do predador;
  5. Luzes e sirenes com uso aleatório colocadas nos potreiros, também podem ser de utilidade para espantar predadores;
  6. Adição de cloreto de lítio nas carcaças, um emético, para provocar distúrbios intestinais nos predadores que se alimentaram das carcaças, o que na maioria dos casos não ocorre na predação por cães;
  7. Alarme ativado por rádio na presença de movimento anormal no rebanho, equipamento interessante, mas que requer monitoramento e ativação remota quando há risco de predação. O custo e a disponibilidade dos equipamentos dificultam suas possibilidades de uso;
  8. Intensificar as revisões nos potreiros onde estão os animais, em caso de mortes de ovinos, remover os cadáveres para não proporcionar alimento a predadores, o que geralmente serve de sinalizador para novos ataques;
  9. Não disponibilizar alimentos para cães sem dono em locais públicos;

Além dessas alternativas tem sido usada a delimitação artificial do território com urina e excremento de predadores, formando um tipo de “cerca biológica” e ainda tiros com balas de borracha não letais para espantar os predadores. O emprego de contraceptivos para manejar a predação é outra possibilidade interessante, alguns estudos têm evidenciado redução na predação de rebanhos ovinos em regiões que a concepção tem sido controlada, indicando que programas de esterilização podem ser úteis para reduzir os danos as criações com fins econômicos. Esse procedimento não deve ser o mais adequado aos programas conservacionistas dos canídeos americanos, entretanto, poderia ser uma alternativa para o controle dos cães errantes no Brasil. Os métodos contraceptivos ainda devem ser aprimorados para seu melhor uso com essa finalidade. O emprego de castração é questionável em termos de efetividade, considerando que para reduzir uma população de cães à metade, um programa de castração deveria ter continuidade durante 20 anos, com uma taxa de castração anual de 60 % dos animais.

No conjunto de alternativas para afugentar os predadores as principais práticas incluem o uso de outras espécies de animais.

  1. Entre os cães pastores, as principais raças utilizadas nos Estados Unidos são os cães de montanha dos Pirineus, Akbash e Komondor; e, em segundo plano pastores da Anatólia, da Ioguslávia e Maremanos. Esta última raça tem ampla difusão no Brasil. Um fato que tem sido constatado em alguns estudos é que a maior proteção aos rebanhos ovinos está relacionada a maior agressividade desses cães pastores. Aparentemente esta é a alternativa mais empregada e de maior sucesso para impedir ataques de predadores nos rebanhos. No meu entendimento a principal restrição para seu uso é a possibilidade de agressão ao homem quando inadvertidamente adentra nas áreas de criação das ovelhas. Além disso há necessidade de alimentar os cães diariamente nos potreiros e retirá-los antes das práticas de manejo;
  2. Os jumentos são usados em torno de 10% dos rebanhos nos Estados Unidos para proteção contra coiotes. Os jumentos têm uma rivalidade espécie específica contra canídeos, atacam com coices e mordidas os cães que adentram o potreiro em que estão localizados. Sua capacidade em espantar os cães, entretanto é limitada pelas cercas. Os machos inteiros são mais ativos e sempre devem ser mantidos isolados de outros da mesma espécie;
  3. As lhamas originárias dos Andes, são naturalmente agressivas contra coiotes e cães, sendo empregadas em torno de 14% das criações nos Estados Unidos. A sua resposta típica à presença de cães é de se interpor entre os predadores e as ovelhas, atacando os cães.

Considerações finais

As soluções exemplificadas acima, de forma isolada pouco contribuem para a redução dos ataques dos cães aos rebanhos ovinos, mas se utilizadas associadas, e dentro de um plano coordenado certamente devem atender a seus objetivos. No atual estado de desenvolvimento cultural e intelectual da humanidade é importante partir do pressuposto que não devemos usar de práticas letais para minimizar a predação das ovelhas no Rio Grande do Sul. Entretanto, o sucesso nas estratégias de proteção não depende apenas de sua eficiência biológica e viabilidade econômica para uso. Depende de qual espécie vai ter a preferência e quais as práticas de manejo que serão adotadas num dado ambiente, favorecendo a espécie eleita e assumindo as consequências da decisão tomada. Especificamente quanto à predação das ovelhas, existem soluções que podem ser adotadas e/ou intensificadas sempre que se estabelecerem situações de desequilíbrio decorrentes dos distúrbios de nossa sociedade. Neste contexto, o aumento da população de “vira-latas” nas cidades, vem se tornando um importante problema social e de saúde pública, mas relegado a um segundo plano, provavelmente porque o cão é o melhor amigo do homem (e das mulheres).

Bibliografia

Andelt, W. F. 2009. “Use of Livestock Guarding Animals to Reduce Predation on Livestock.” Sheep & Goat Research Journal 19: 72–75. http://www.sheepusa.org/index.phtml?page=site/news_details&nav_id=8d65b3d4d0fceb2.

Andelt, W. F., and S. N. Hopper. 2000. “Livestock Guard Dogs Reduce Predation on Domestic Sheep in Colorado.” Journal of Range Management 53 (3): 259–67. doi:10.2307/4003429.

Boivin, X, J Lensink, C Tallet, and I Veissier. 2003. “Stockmanship and Farm Animal Welfare,” no. 2001: 479–92.

Brown, P. D. 2011. “Wolves and Livestock: A Review of Tools to Deter Livestock Predation and a Case Study of a Proactive Wolf Conflict Mitigation Program Developed in the Blackfoot Valley, Montana.” Montana The Magazine Of Western History.

Christiansen, F. O., Morten B., and Bjarne O. B. 2001a. “Behavioural Changes and Aversive Conditioning in Hunting Dogs by the Second-Year Confrontation with Domestic Sheep.” Applied Animal Behaviour Science 72 (2): 131–43. doi:10.1016/S0168-1591(00)00203-3.

———. 2001b. “Behavioural Differences between Three Breed Groups of Hunting Dogs Confronted with Domestic Sheep.” Applied Animal Behaviour Science 72 (2): 115–29. doi:10.1016/S0168-1591(00)00202-1.

———. 2001c. “Social Facilitation of Predatory, Sheep-Chasing Behaviour in Norwegian Elkhounds, Grey.” Applied Animal Behaviour Science 72 (2): 105–14. doi:10.1016/S0168-1591(00)00208-2.

Gutjahr, M. 2013. Estudo do impacto da esterilização cirúrgica no controle populacional canino por distrito administrativo no município de São Paulo – SP . 77f. Dissertação (Mestrado em Ciências) Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Lobão, A.O. Os cães e as ovelhas. Jornal de Piracicaba/Policia/Geral, quinta-feira, 27 de Agosto de 1992, página 12, Extraído da internet 24/03/2016: http://www.cesaho.com.br/biblioteca_virtual/livro.aspx?l=21 Jornal

Shivik, J. 2006. “Tools for the Edge: What’s New for Conserving Carnivores.” BioScience 56 (3): 253. doi:10.1641/0006-3568(2006)056[0253:TFTEWN]2.0.CO;2.

Spruijt, B. M., Ruud Van den Bos, and Femke T. A. P. 2001. “A Concept of Welfare Based on Reward Evaluating Mechanisms in the Brain: Anticipatory Behaviour as an Indicator for the State of Reward Systems.” Applied Animal Behaviour Science 72 (2): 145–71. doi:10.1016/S0168-1591(00)00204-5.

Uma história de verão

Depois de um mês de janeiro extremamente quente, finalmente o verão está ameno na praia. O vento nordeste reaparece forte, trazendo com ele o verdadeiro clima do litoral sul do Brasil:  mar escuro, água fria e areia fina voando. Complementando este cenário natural, quase todos os dias são vistos guarda-sois voadores, ou depois do primeiro voo, o famoso guarda-sol maneado, mantido em posição por um sistema de fixação improvisado com o material disponível; ou, ainda o guarda-sol detonado, completamente retorcido abandonado numa lixeira.
Nesses “flagrantes da vida real” surgem os veranistas experientes que desenvolvem técnicas altamente especializadas para produzir o almejado conforto para tomar a sua cervejinha gelada, acompanhando o farnel preparado antes de sair de casa ou o sofrido churrasco, preparado com o auxílio do vento a 50 km por hora. 
Eram onze horas da manhã, o Nordestão estava implacável. Um casal estaciona o carro ainda limpo, indicando que eram recém chegados ao litoral. Saem do carro, inspecionam um local a uns 10 metros de distância, limpo, sem ninguém muito por perto. Trocam algumas palavras e decidem… é aqui!. A senhora retorna ao carro, voltando para o local do acampamento, com dificuldade de manter o chapéu na cabeça, mas já com um cachorrinho pela coleira, jornais e duas cadeiras de praia. O marido vai então ao carro e começa a trazer o equipamento totalmente desenvolvido na sua oficina particular: quatro suportes reguláveis, que aparentemente deveriam ser mantidos em pé por discos de embreagem usados. A cada viagem até o carro a sensação era que o nosso veranista ia cair ao passar sobre o monte de areia feito para delimitar a posição dos carros, em função do seu centro de gravidade alterado pela enorme barriga e a carga transportada.
Mas tudo era tecnologia, apareceu uma bombinha de areia, que implacável perfurou a terra úmida, sendo então colocados os quatro suportes, mantidos eretos com o auxílio das embreagens velhas e de estacas preparadas especialmente para a tarefa.
Mais uma viagem até o carro e eis que surge a cobertura. Um toldo de sombrite, possivelmente capaz de promover uns 86% de sombreamento, nos quatro cantos haviam sistemas de fixação compatíveis com os suportes já preparados. Após alguma conversa a dama foi encarregada de segurar um dos suportes, o que fez heroicamente durante uns 20 minutos com uma das mãos, pois a outra estava dedicada a guia do cachorrinho que assistia a cena pacientemente. Mesmo considerando toda a tecnologia aplicada o vento não deixava que o toldo ficasse na posição desejada. Até que o nosso heróico veranista atira tudo no chão e vai novamente para o carro.
O que ele estaria procurando, um martelo, uma marreta, mais “tecnologia”…
Depois de alguns minutos ele retorna de mãos vazias ao local do futuro convescote, liberando então a dama da tarefa de escorar o suporte, senta numa das cadeiras, acende um cigarro, abre a caixa térmica, pega uma cerveja e toma um largo trago, aparentemente sem se incomodar mais com o sol e o vento.
Quando fui para casa passei perto do carro e … a placa era de Bagé…