Os sistemas de produção de ovinos têm sido melhorados desde o início do século passado com avanços em praticamente todos os segmentos, com a introdução de práticas, que se empregadas continuadamente, podem promover aumento na natalidade e redução na taxa de mortalidade. No entanto, por mais que seja feito, sempre surge algo novo para as ovelhas cumprirem seu destino – morrer.
Em outro texto apresentei algumas soluções para “O controle dos ataques de cães aos ovinos”. As expensas de muito cuidado diário, potreiros telados e uso de algumas das alternativas descritas, finalmente se consegue reduzir a mortalidade de cordeiros pelos ataques de cães errantes. Mas a predação à criação de ovinos é como os “The Walking Dead” sempre surge mais um… Os novos inimigos que aumentam em importância nos últimos anos são as aves de rapina.
Um exemplo alarmante da predação pelos caranchos e urubus foi verificado num rebanho de 61 ovelhas prolíficas durante o mês de setembro de 2016. No total nasceram 158 cordeiros, indicando uma taxa superior a 2,5 cordeiros por ovelha. Entre estes 36 (23%) nascidos de partos duplos, triplos e até quádruplos foram atacados, mortos e até carregados de junto do rebanho pelos rapinantes.
Aparentemente é o trabalho de uma gang composta por urubus e falcões. Os urubus cabeça vermelha (Cathartes aura) chegam logo após o parto das primeiras ovelhas, com a desculpa legítima de que apenas fazem parte do departamento de limpeza, comendo os restos das placentas que ficam no campo. Mas, o nascimento dos cordeiros chama a atenção de outros membros dessa gang: os urubus cabeça preta (Coragyps atratus) e os caranchos (Caracara plancus) que ficam na espreita do nascimento de cordeiros fracos, nascidos de partos triplos, para o seu ataque, que se completa com a ação dos pequenos oportunistas chimangos (Milvago chimango). Inicialmente o ataque é tímido, mas vai tomando proporções desesperadoras para as ovelhas, que não conseguem mais afugentar os agressores de suas crias ainda indefesas, e, para o homem que tem a seu encargo cuidar das ovelhas.
Numa alusão filosófica à relação entre o bem e o mal, imagino que deveríamos – sim – condenar a ação das aves de rapina, nos posicionando como os protetores das ovelhas que criamos para alimento, abrigo e vantagens econômicas da nossa cínica Civilização. A forma menos destrutiva ao ambiente para uma tomada de posição é estudar o assunto, mesmo com a visão míope de um veterinário que sempre trabalhou com foco na produção animal.
A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção é um inventário criado em 1964 pela IUCN (“The International Union for Conservation of Nature”- http://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2012-1.RLTS.T22696264A40310499.en) que edita com periodicidade variável o estado de conservação das espécies encontradas na natureza. No Rio Grande do Sul essa lista é exibida juntamente com outras informações sobre a biodiversidade pela Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. A lista inclui informação sobre praticamente todos os grupos taxonômicos do planeta, estratificados em três níveis principais: primeiro, quanto a sua avaliação (sim ou não); segundo, quanto a disponibilidade de dados (adequados ou insuficientes); e, terceiro, quanto ao risco de extinção em função dos dados disponíveis. Neste último extrato cada espécie pode ser enquadrada em uma das seguintes situações: extinta, extinta na natureza, sob risco crítico de extinção, sob risco, vulnerável, próxima a risco de extinção e de baixo risco. Neste contexto, as nossas rapinantes foram classificadas como de baixo risco, com um adequado volume de informações disponíveis (http://www.avesderapinabrasil.com/index.htm; http://globalraptors.org/grin/indexAlt.asp, https://secweb.procergs.com.br/livlof/?id_modulo=1&id_uf=23&ano=2012 ), não sendo, portanto, incluídas entre as aves de rapina ameaçadas de extinção em nosso meio. Essa classificação, deve deixar, portanto, alguma margem de manobra para tentar modificar a relação presa predador que está se instalando e não interessa à ovinocultura como atividade econômica.
Na região da Campanha do Rio Grande do Sul o carancho é a ave de rapina que mais tem pressionado negativamente as criações de ovinos durante os períodos de parição. Isso se deve provavelmente ao fato de que o carancho combina o instinto rapinante das águias, com a necrofagia do urubu e ainda se caracteriza por ser uma ave de habitats amplos incluindo, pastagens, desertos, vegetação arbustiva e matas.
O carancho constrói seus ninhos geralmente em árvores de grande porte, autóctones ou plantadas, a postura é de 3 a 4 ovos em dias alternados, incubados durante 30 dias, os filhotes são alimentados durante uns 50 dias entre os meses de junho a dezembro. São generalistas na alimentação, que inclui carcaças de animais mortos e artrópodes. Os adultos consomem prioritariamente artrópodes, mas carregam presas maiores para os ninhos, o que é plenamente coerente com o desaparecimento dos cordeiros recém-nascidos vivos ou mortos. Aliado a este fato, foi observada mudança na sua dieta durante a temporada reprodutiva, caracterizada por uma redução na seletividade e uma tendência a um menor consumo de artrópodes. Estes estudos são feitos pela avaliação de egagóprilas, que são bolas de restos de alimentos regurgitados pelas aves não digeridos. Através dessa metodologia também foram observados restos de ovinos na dieta do Chimango durante o período reprodutivo desta ave, entre os meses de novembro a março.
Efetivamente o tema requer estudos mais aprofundados sobre os artrópodes, a biodiversidade e os efeitos antropogênicos nessa exacerbada predação dos ovinos pelos rapinantes. O que pode ser até escopo de pesquisa com foco na continuidade da pecuária na nossa região.
Um estudo na Patagônia Argentina evidenciou que os maiores mamíferos encontrados na dieta dos caranchos são realmente os ovinos, fato explicável pela maior taxa de abandono de carcaças de ovinos no campo, em comparação as de bovinos, onde ambas as espécies são criadas em conjunto.
Uma possível explicação para o aumento da predação dos ovinos pode ser a redução, ou mesmo, a atual realocação dos rebanhos de bovinos e ovinos no Rio Grande do Sul, associadas as mudanças no uso da terra e desenvolvimento urbano, caracterizados pelo aumento das áreas de lavouras e crescimento da periferia das cidades do interior. Nestas condições pode entrar em desequilíbrio a disponibilidade de habitats para aves jovens e adultas, determinando o aumento da predação de ovinos vivos recém-nascidos em locais marginais próximos a centros urbanos. Além disso, essas aves apresentam baixa neofobia, que seria a demonstração de pavor ou medo a situações novas ou não familiares, o que determina seu alto potencial adaptativo frente a modificações ambientais. Um exemplo interessante é um estudo sobre efeitos individuais e da idade, na neofobia do predador Neotropical (Milvago chimango), ou seja, na sua capacidade exploratória e de resolver problemas. Os resultados indicaram uma importante tendência exploratória, baixa neofobia e habilidade em inovar. Essas características devem ser vantajosas para o comportamento generalista e de predador oportunista do Chimango, que determinam seu sucesso em termos ecológicos.
Como reagimos à predação pelas aves de rapina – na grande maioria dos casos, quando os ataques não são muito prevalentes, nada se faz. Quando aumenta o percentual de animais mortos as primeiras reações são de espantar as aves com foguetes ou tiros, ou mesmo o uso de veneno nas carcaças. Essas ações de perseguição humana direta têm baixo resultado, considerando a origem distinta do problema.
A ideia de compartilhar esse texto é de ouvir a “Voz do povo”, ou seja, a de buscar conhecimentos ou alternativas para enfrentar o problema no futuro incluindo as sugestões de um maior número de pessoas. De nossa parte foi construída uma composteira para depósito das carcaças de cordeiros mortos, cujo sucesso foi considerado apenas como razoável, já que o momento preferencial do ataque dos rapinantes é durante ou logo após o parto das ovelhas. Evidentemente soluções de maior custo podem ser imaginadas, como a construção de galpões para os partos das ovelhas e os primeiros dias dos cordeiros, mas que no mundo real são pouco viáveis.
Numa reflexão mais ampla sobre o futuro da produção animal sustentável nestas regiões sensíveis, poderia ser imaginada a criação de uma política contrária ao avanço das fronteiras dos cultivos agrícolas e consequente redução das tradicionais áreas de campo onde convivem os bovinos, os ovinos e os nossos aventureiros voadores.
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