Os inimigos naturais dos ovinos são as verminoses gastrintestinais, o abigeato e os ataques de predadores. Nos últimos sessenta anos diversas ações foram efetuadas na busca de tecnologias para o controle das verminoses. Essas ações nem sempre foram um sucesso, mas podemos ter certeza que muita coisa efetiva foi feita. Quanto ao abigeato, acompanhamos o agravamento do problema, associado à redução dos rebanhos, à má distribuição da renda no País e ao aumento do desemprego nas periferias das cidades do Interior. O terceiro inimigo também com incidência aleatória é a predação por cães vadios, sorros, caranchos e urubus.
O ataque de cães e outros carnívoros aos rebanhos ovinos no Rio Grande do Sul é uma das principais causas de perdas na produção e de desestímulo à ovinocultura. E o que temos feito sobre o assunto? Tem sido como falar do tempo, muito se fala e nada se pode fazer! Depois de cada novo ataque ao rebanho apenas é renovada minha fúria interior contra os cães matadores de ovelhas e, eu não faço nada! Até que achei na internet um artigo do veterinário Antonio Oliveira Lobão intitulado “Os cães e as ovelhas” onde ele aborda de forma simples e clara algo que tinha esquecido, a natureza de caçador e os aspectos evolutivos dos cães e suas presas, justificando porque cães bem alimentados, perseguem, mordem e até matam as ovelhas. Evidentemente esse “brinquedo” dos cães é a fonte do terror das ovelhas cujo temperamento pacífico e a falta de armas para defesa tem como única alternativa correr, correr até a exaustão, quando então os cães as mordem para estimular uma nova corrida. Diversos níveis de lesões são provocados pelo terrível brinquedo dos cães, desde estresse, ferimentos nas orelhas, paletas e quartos até a morte, quando ocorrem excessos nas brincadeiras. Excessos que geralmente surgem quando muitos cães estão envolvidos na brincadeira. Por incrível que possa parecer o trocadilho, o Dr. Lobão recomenda que devemos proteger as vítimas (as ovelhas) em instalações adequadas, manter vigilância humana constante ou de cães pastores. E ainda sabiamente alerta que: “Matar ou bater num cão que possui um forte instinto de caçador pode parecer a solução, mas não é! Esta providência é passageira ou temporária, pois outros cães, com o mesmo instinto, virão procurar as ovelhas”.
Neste contexto, é importante buscar uma solução, trocar a estratégia, não mais falar do “tempo”, mas sim, estudar o assunto que não deve ser peculiaridade de um dado local. O objetivo desse manuscrito é de sintetizar uma breve revisão sobre alternativas para não inviabilizar a criação de ovelhas (“as presas”) sob a ameaça constante de predadores carnívoros.
Alternativas para redução da predação pelos carnívoros
A maioria dos exemplos a seguir são utilizados nos Estados Unidos, onde a conservação de algumas espécies de carnívoros em parques nacionais, reservas e periferias de pequenas cidades vem gerando conflitos com os homens e suas criações. Na tentativa de mitigar os ataques dos predadores às criações têm sido indicadas medidas para desestimular ou afugentar os predadores.
Entre as alternativas que desestimulam os predadores destacam-se:
- Construção de abrigos para os animais, onde as ovelhas são colocadas à noite ou durante os períodos de parição. Essa alternativa é factível para rebanhos pequenos, constituídos de animais de alto valor individual;
- Cercas construídas com telas que reduzem o acesso dos predadores, essa alternativa contribui para a redução da predação, entretanto, requer constante manutenção, pois, quando os cães conseguem acessar o perímetro telado os ataques passam a ser frequentes e intensos;
- Uso de bandeirolas para desestimular o ingresso dos predadores em uma área fechada. Prática empregada para espantar canídeos, que nem sempre funciona bem para todas as espécies de predadores. A prática é de baixa utilidade para aves de rapina, sendo que os canídeos se adaptam ao estímulo num período de 60 dias;
- Uso do “colar do rei” um colar colocado em alguns ovinos, na região da jugular, local preferencial do ataque de coiotes e chacais. Esse aparato pode conter algum tipo de veneno leve, como o cloreto de lítio, para desestimular novos ataques. É um sistema razoavelmente seguro, apenas ativado pelo ataque do predador;
- Luzes e sirenes com uso aleatório colocadas nos potreiros, também podem ser de utilidade para espantar predadores;
- Adição de cloreto de lítio nas carcaças, um emético, para provocar distúrbios intestinais nos predadores que se alimentaram das carcaças, o que na maioria dos casos não ocorre na predação por cães;
- Alarme ativado por rádio na presença de movimento anormal no rebanho, equipamento interessante, mas que requer monitoramento e ativação remota quando há risco de predação. O custo e a disponibilidade dos equipamentos dificultam suas possibilidades de uso;
- Intensificar as revisões nos potreiros onde estão os animais, em caso de mortes de ovinos, remover os cadáveres para não proporcionar alimento a predadores, o que geralmente serve de sinalizador para novos ataques;
- Não disponibilizar alimentos para cães sem dono em locais públicos;
Além dessas alternativas tem sido usada a delimitação artificial do território com urina e excremento de predadores, formando um tipo de “cerca biológica” e ainda tiros com balas de borracha não letais para espantar os predadores. O emprego de contraceptivos para manejar a predação é outra possibilidade interessante, alguns estudos têm evidenciado redução na predação de rebanhos ovinos em regiões que a concepção tem sido controlada, indicando que programas de esterilização podem ser úteis para reduzir os danos as criações com fins econômicos. Esse procedimento não deve ser o mais adequado aos programas conservacionistas dos canídeos americanos, entretanto, poderia ser uma alternativa para o controle dos cães errantes no Brasil. Os métodos contraceptivos ainda devem ser aprimorados para seu melhor uso com essa finalidade. O emprego de castração é questionável em termos de efetividade, considerando que para reduzir uma população de cães à metade, um programa de castração deveria ter continuidade durante 20 anos, com uma taxa de castração anual de 60 % dos animais.
No conjunto de alternativas para afugentar os predadores as principais práticas incluem o uso de outras espécies de animais.
- Entre os cães pastores, as principais raças utilizadas nos Estados Unidos são os cães de montanha dos Pirineus, Akbash e Komondor; e, em segundo plano pastores da Anatólia, da Ioguslávia e Maremanos. Esta última raça tem ampla difusão no Brasil. Um fato que tem sido constatado em alguns estudos é que a maior proteção aos rebanhos ovinos está relacionada a maior agressividade desses cães pastores. Aparentemente esta é a alternativa mais empregada e de maior sucesso para impedir ataques de predadores nos rebanhos. No meu entendimento a principal restrição para seu uso é a possibilidade de agressão ao homem quando inadvertidamente adentra nas áreas de criação das ovelhas. Além disso há necessidade de alimentar os cães diariamente nos potreiros e retirá-los antes das práticas de manejo;
- Os jumentos são usados em torno de 10% dos rebanhos nos Estados Unidos para proteção contra coiotes. Os jumentos têm uma rivalidade espécie específica contra canídeos, atacam com coices e mordidas os cães que adentram o potreiro em que estão localizados. Sua capacidade em espantar os cães, entretanto é limitada pelas cercas. Os machos inteiros são mais ativos e sempre devem ser mantidos isolados de outros da mesma espécie;
- As lhamas originárias dos Andes, são naturalmente agressivas contra coiotes e cães, sendo empregadas em torno de 14% das criações nos Estados Unidos. A sua resposta típica à presença de cães é de se interpor entre os predadores e as ovelhas, atacando os cães.
Considerações finais
As soluções exemplificadas acima, de forma isolada pouco contribuem para a redução dos ataques dos cães aos rebanhos ovinos, mas se utilizadas associadas, e dentro de um plano coordenado certamente devem atender a seus objetivos. No atual estado de desenvolvimento cultural e intelectual da humanidade é importante partir do pressuposto que não devemos usar de práticas letais para minimizar a predação das ovelhas no Rio Grande do Sul. Entretanto, o sucesso nas estratégias de proteção não depende apenas de sua eficiência biológica e viabilidade econômica para uso. Depende de qual espécie vai ter a preferência e quais as práticas de manejo que serão adotadas num dado ambiente, favorecendo a espécie eleita e assumindo as consequências da decisão tomada. Especificamente quanto à predação das ovelhas, existem soluções que podem ser adotadas e/ou intensificadas sempre que se estabelecerem situações de desequilíbrio decorrentes dos distúrbios de nossa sociedade. Neste contexto, o aumento da população de “vira-latas” nas cidades, vem se tornando um importante problema social e de saúde pública, mas relegado a um segundo plano, provavelmente porque o cão é o melhor amigo do homem (e das mulheres).
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